Corpo nu

Corpo de um ventre vivo que gerou duas vidas, e que me impulsiona sensações em abundância, apesar de não ser esteticamente perfeito. Um corpo que não paralisou nas intempéries e este é o seu grande poder.

Deixo a água morna deliciosa cair sobre meu corpo, trabalhosamente lavo meus cabelos crespos, que agora mais do que nunca estão naturais, assumi minha negritude. Quem os vê hoje não acredita que usei lisos por tantos anos. Mas penso; tinha que passar pela experiência de ser lisa. Passo o hidratante pegando mecha a mecha e vou massageando para que fiquem brilhantes.
Coloco generosamente o sabonete líquido na esponja e delicadamente vou passando pelo meu corpo até onde meus braços alcançam.
Amar meu corpo é um aprendizado diário, ele é minha identidade, me oferece conforto e segurança ao meu ser. Que mistério é a vida, beleza, romantismo, encanto.
Passo a esponja pela mama que tive o câncer, ela é bem menor que a outra e obviamente isso não é uma cena que não se faz notar. Lembro todos os dias…não tem como não lembrar…. mas não com dor…. Vejo o copo meio cheio, sempre.
Olho pra mama e lembro que ali já tiveram dois tumores que poderia ter me roubado a vida; vida e seus mistérios. Eu venci. A mama imperfeita é a marca da minha vitória.
Saio do box, e deixo a água escorrer gostoso. Cuido dos crespos, passo os cremes para que fiquem bonitos ao secarem.
O espelho está à minha frente. Paro a observar meu corpo nu. Meu rosto, liso, sem as rugas que determinam as marcas do tempo. Genética pura, é a única explicação. Natureza perfeita, quase um conto de fadas, que não permite sentimentos de carregar o corpo como se fosse uma carga qualquer.
Deslizo o creme hidratante por um corpo jogado ao ostracismo, de pele #respeiteémelaninapura, como diz a Gata Crioulla. Um corpo que vibra ao ouvir a voz da pessoa amada ou a música que marcou o primeiro encontro.
Um corpo que me transporta, que anima a minh’alma, que eu sinto escravizar tamanho as exigências que eu imposto a ele nesta vida concreta, real.
Um corpo com suas marcas e cicatrizes, que o espelho insiste em mostrar, mas que constroem uma história que não passa em vão.
Corpo de um ventre vivo que gerou duas vidas, e que me impulsiona sensações em abundância, apesar de não ser esteticamente perfeito. Um corpo que não paralisou nas intempéries e este é o seu grande poder.
Apesar do peso, o sinto leve, suave igual a uma apresentação de balé e antagonicamente uma agitação desenfreada que ecoam desejos.
Meu corpo que uso por inteiro, de forma tentadora, que me prende em armadilhas. Um corpo que me leva por aí, com uma alegria que enaltece o espírito, com positividade, com capacidade de mobilizar suas energias internas, e dar a perceber que não há cativeiro capaz de segurá-lo se não for o seu bem querer, que me faz relaxar numa noite de lua cheia, céu perfeito de estrelas.

 

#teatirapravida

 

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